Este post, está escrito há alguns meses, ele faz parte de uma sequência sobre maternidade/paternidade, mas demorei para publicá-lo. Esta sequência teve origem na elaboração de uma palestra que preparei para as “Quartas no CRP” do mês de novembro de 2008.
Estou considerando, aqui neste caminho, casais que tentam engravidar por pelo menos um ano e não conseguem. Então, passam a realizar exames, tratamentos e acompanhamentos específicos para facilitar a gravidez.
O que posso comentar é que o caminho é longo e demorado. Uma vez considerada a necessidade de investigação e tratamento, o casal, que já está há mais de um ano na expectativa de engravidar, submete-se a muitos exames, faz uso de medicamentos e sofre uma série de procedimentos que podem se estender por anos. Tudo isso pode acontecer antes mesmo de se optar por realizar inseminações ou fertilização in vitro.
Então, de uma maneira geral, estamos falando de um casal que está com sua intimidade exposta em um consultório médico todos os meses e durante anos. Passa a não ter controle sobre sua intimidade, pode estar se sentindo impotente diante de uma situação onde quem determina qual o melhor momento para ter as relações íntimas é uma terceira pessoa (o médico).
Além disso, pelo longo período de espera pela gravidez, pode estar com um nível de ansiedade bastante elevado e ao mesmo tempo, sentindo-se frustrado. Neste contexto, temos um casal frágil e que vive muitos lutos não reconhecidos pela sociedade.
Muitas vezes, este casal já vive algumas das implicações do planejamento de ter um filho, sem que este filho chegue, por muito tempo.
O que podemos chamar de lutos recorrentes, vividos por um casal infértil, são processos de luto, necessários para elaborar a não fecundação. O processo de luto, em um caso como este, é semelhante a qualquer outro processo de luto com o agravante de que pode se repetir todos os meses durante anos. E que este casal pode nunca ter concedido o direito de vivenciar estes lutos. Seria como ter uma ferida que não se fecha, pois cada vez que ela poderia estar cicatrizando se abre novamente com uma outra tentativa frustrada.
Durante o tratamento, é provável que o casal conviva com outros casais com filhos pequenos ou amigos grávidos, pois temos tendência a manter relações de amizade com pessoas da mesma faixa etária e vivenciando um momento de vida semelhante. Não é raro que haja uma tendência ao isolamento, pois em alguns momentos a convivência pode colocá-los diante de uma expectativa ainda maior, tornado os momentos de frustração ainda mais dolorosos. Ë natural nos protegermos do sofrimento. Obesos podem não se sentir à vontade em academias onde as outras pessoas tem um porte atlético, viúvos (as) podem se entristecer no meio de casais entrosados, casais em tratamento para engravidar podem sentir desconforto diante de casais com filhos pequenos. No entanto, é praticamente impossível que obesos só convivam com obesos e viúvos (as) com viúvos (as) e casais sem filhos com casais sem filhos. Ou seja, a exposição a estímulos que podem se tornar dolorosos é quase inevitável.
Além disso, o isolamento e a diminuição das atividades de vida social podem provocar um sentimento de solidão. É importante que o casal receba suporte para compreender seus sentimentos e encontrar alternativas para lidar com eles. A saúde do relacionamento do casal auxilia na superação das dificuldades.
Decisões muitos importantes devem ser tomadas por um casal em tratamento para engravidar, uma delas é em relação a realização ou não de inseminações e/ ou de fertilização, que pode ser um procedimento caro, com uma chance não tão alta de sucesso, risco de nascimentos múltiplos e conseqüentemente uma gravidez delicada.
Outra delas e em relação a em que momento optar pela adoção ou se essa é uma opção viável para o casal ou não.
O entrosamento e a cumplicidade do casal podem tornar a reflexão acerca de qual caminho seguir menos dolorosa. Além de permitir que as decisões sejam tomadas atendendo às necessidades dos dois, sem que um se sinta “desfavorecido” ou sinta que seus sentimentos estão sendo menos considerados.
Sempre que pensamos em envolver uma terceira pessoa no relacionamento (um filho), seja no planejamento por, na espera ou quando esta pessoa chega, o relacionamento necessita de uma reorganização. A vida, tanto do homem como da mulher necessita desta reorganização e consequentemente a “vida do casal”, também. Não é possível seguir sendo a mesma pessoa. E em um momento como este, onde as duas pessoas já não são as mesmas, pois cada uma viveu a experiência a seu modo e com seus recursos internos, é preciso se descobrir novamente. É preciso enamorar-se outra vez, é preciso abrir espaço para reconhecer o “novo parceiro” dentro do antigo amor. E, desta maneira, fortalecer os laços afetivos.